Edição 59 Transformação Digital

Inovação em modo de sobrevivência

Esta edição da revista Automotive Business é patrocinada por:

Sem tempo para ler? Que tal OUVIR esse texto? Clique no play!

O investimento em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) é um dos pilares das empresas automotivas, uma indústria movida a inovações e avanços tecnológicos. A atual crise, no entanto, pode colocar em dúvida esta tradição – ao menos por algum tempo. Uma série de fabricantes de veículos já confirmou o congelamento de qualquer anúncio para o desenvolvimento de novos produtos enquanto a pandemia de Covid-19 não tiver um horizonte mais claro, decisão que refletem em toda a cadeia de valor.

Afinal, como reservar capital para investir na construção de soluções e produtos para o longo prazo diante de uma situação de emergência, que exige imediatismo? A resposta não é exatamente simples, mas Valter Pieracciani, sócio-fundador da Pieracciani Consultoria, entende ser essencial que as empresas busquem o equilíbrio entre a gestão dos desafios atuais e o trabalho na construção de soluções para o futuro. “Questão de sobrevivência”, diz.

Ele lembra que a pandemia traz mudanças socioculturais poderosas. “Teremos novos hábitos e desejos. Quem não investir para oferecer novos produtos ou soluções adaptadas ao contexto, vai perder poder de venda” avalia. Segundo ele, a hora é ideal para que as empresas da cadeia automotiva arregaçar as mangas e rever a proposta de valor aos produtos que oferece ao mercado.

P&D está na essência do setor automotivo

A visão de Pieracciani é endossada pelo presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes. Segundo ele, a queda substancial das receitas das empresas e a situação de emergência pode ser um obstáculo aos investimentos em inovação, mas o tema não pode sair da agenda das empresas do setor.

“P&D continua como o motor da indústria automotiva em qualquer país do mundo. Não é por coincidência que parte do desenho do Rota 2030 (regramento desenhado para o setor automotivo) é em torno do estímulo ao financiamento de P&D. Nossa indústria não consegue avançar sem esse tipo de indução, precisamos da participação da academia, da cadeia de fornecedores e de startups”, diz, garantindo que a indústria voltará ao ritmo de investimentos depois que recuperar a capacidade financeira.

Dan Ioschpe, presidente do Sindipeças, diz que o Rota 2030 é uma ferramenta muito importante para acelerar as atividades de P&D e garantir resultados no médio e longo prazo.

Segundo o executivo, mesmo no contexto de pandemia, o investimento em inovação “segue sendo um assunto fundamental, sem o qual teremos dificuldade em avançar.”

Ele prossegue: “Temos centros tecnológicos importantes no País e programas excepcionais, como o Rota 2030 e a Embrapii, por exemplo. Ou seja, temos condições de lançar muito nessa agenda. Persistência e melhoria continua nos  programas parece ser o nome do jogo.”

Quarentena atrasa os projetos

Um dos legados da pandemia deve ser o atraso em projetos de Pesquisa & Desenvolvimento que já estavam no cronograma das empresas. Pieracciani diz que a necessária quarentena causa atraso em testes e validações que dependem da presença física.

“Os laboratórios pararam por um tempo. Devemos sair da crise com postergação de dois a três meses em projetos que já estavam previstos”, calcula. Segundo ele, o impacto só não foi pior porque as áreas de P&D costumam ser mais digitalizadas nas empresas automotivas.

“Há muito tempo estes times estão habituados a trabalhar a distância, em rede, com profissionais que estão em outros países ou até em outras empresas, como fornecedores e outros parceiros”, diz.

Na crise, mais clareza e menos intuição

Se a falta de foco é capaz de levar empresas a cometerem erros graves em situações normais, na crise esta realidade fica ainda mais evidente. Priorizar é essencial, avisa Pieracciani. Ele recomenda que as empresas adotem o Founder´s Mentality, método desenvolvido por Chris Zook para que companhias atravessem períodos difíceis sem deixar a inovação de lado.

“O caminho é apurar o portfólio e focar o investimento e a força de trabalho naqueles projetos com real potencial”, conta. Para entender quais em quais iniciativas se concentrar, o consultor diz que as ideias e propostas precisam passar por três peneiras.

A primeira delas é escolher, entre os projetos que estão no horizonte, aqueles que a empresa é capaz de fazer naturalmente. “É o exercício de entender onde está o seu know how, identificar aquelas iniciativas para as quais não é necessário contratar especialistas ou investir em equipamentos, por exemplo”, diz.


Patrocínio


Os projetos que permanecerem de pé depois desta primeira etapa devem ser submetidos a outra pergunta, diz Pieracciani: “Dos potenciais produtos e soluções que eu posso desenvolver, quais os meus concorrentes terão mais dificuldade de imitar?”

O especialista conta que último filtro é mapear se a iniciativa ou produto será percebido como valor pelos clientes, levando em conta o contexto de crise. “Em um momento como este é preciso fazer escolhas e usar estes filtros, com condições claras, é um ótimo caminho para isso”, diz.

E prossegue: “O critério não pode ser a preferência do chefe ou do time de desenvolvimento. Este é um dos casos em que a intuição não funciona.”

Inovação com financiamento garantido

A falta de recursos financeiros é um dos obstáculos mais óbvios ao investimento das empresas em P&D durante a crise. Pieracciani diz que há caminhos para superar esta barreira com a ajuda de linhas de fomento à inovação e de desonerações de impostos.

“É possível custear 75% dos projetos com recursos oferecidos pelo governo. Fora isso, ainda há linhas de financiamento que permitem pagar o porcentual restante com carência de até cinco anos”, conta.

Segundo ele, surgiram com a pandemia ainda mais ferramentas de estímulo à inovação. O consultor aponta que os recursos foram ampliados principalmente quando se trata de pequenas e médias empresas e a projetos relacionados à inovação radical em algumas áreas estratégicas, como a da saúde.

“Isso parece distante do setor automotivo, mas há muitas iniciativas que se encaixam, em que há o encontro entre mobilidade e saúde”, conta o especialista. Ele cita como exemplo de soluções tecnológicas voltadas à saúde do motorista no caso da indústria de caminhões ou iniciativas em telemedicina.

O legado para a indústria da mobilidade

O especialista avalia que, além das profundas dificuldades financeiras, a atual crise deixará como legado uma mudança nos comportamentos de mobilidade que afetará produtos e serviços. Por isso, o especialista entende que o melhor caminho para as empresas da cadeia produtiva está em investir na reconversão produtiva: um processo de flexibilização dos parques fabris para que eles produzam diferentes itens e, até mesmo, forneçam para diversos setores.

“Na crise vimos empresa de filtros passar a fazer máscaras de proteção”, exemplifica. Com o dólar elevado e a demanda por nacionalização em alta, o consultor aponta que ampliar as possibilidades das fábricas pode ser o caminho para recuperar a saúde financeira no novo normal.

Você também pode gostar