Cenários Edição 59

O futuro sufocado pelo coronavírus

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Entre os sintomas da Covid-19, doença disseminada pela pandemia de coronavírus que chegou com força ao Brasil em março, estão a insuficiência respiratória que já matou milhares de pessoas e o sufocamento da economia, agravado aqui pela crise política que não deixa o País respirar, em combinação que causa sério embaçamento da visão sobre o futuro. A indústria automotiva nacional adoeceu severamente com os efeitos do vírus, pois fazia parte do grupo de risco com uma comorbidade patogênica: o setor vinha em lenta e ainda frágil recuperação da recessão econômica que derrubou volumes e faturamento entre 2014 e 2017, estava portanto com a imunidade baixa para enfrentar outro ataque à sua saúde.

Passados três meses de profunda depressão nas vendas, exportação e produção, a indústria entrou em modo de sobrevivência, cortou custos, suspendeu contratos de trabalho, reduziu jornadas e salários, congelou e adiou investimentos. Nesse quadro, o único prognóstico confirmado é o de profunda recessão, ainda que não seja possível quantificar seu tamanho exato nem o tempo de saída, se será um movimento em “V”, “U”, “W” ou ficará em “L”. Isso porque ainda não se sabe ao certo quando a pandemia e seus efeitos colaterais chegam ao fim, nem como será o recomeço, a reconstrução, ou como serão (se forem) os estímulos do governo brasileiro à retomada da economia.

“Temos a tempestade perfeita: queda de produção, queda de vendas no mercado interno e na exportação, aumento de custos, retração de confiança do consumidor/investidor e indicadores econômicos ruins”

Luiz Carlos Moraes
Presidente da Anfavea

Projeções ladeira abaixo

Diante da expectativa de queda destrutiva do PIB acima de 7% este ano, cotação do dólar entre R$ 5 e R$ 6, em combinação com aumento explosivo do desemprego (que já era alto na casa dos 12% e deve dobrar), redução de renda e queda abissal da confiança dos consumidores, a associação dos fabricantes de veículos, a Anfavea, tomou fôlego para fazer sua primeira projeção pós-pandemia. No início de junho, divulgou que espera por contração de 40% nas vendas este ano, o que significa 1,67 milhão de unidades em comparação com os 2,8 milhões de 2019. A entidade ainda não revisou a previsão de exportação e produção, mas no ritmo atual não se espera muito mais do que 1,7 milhão de veículos produzidos em 2020.

A pandemia e seus efeitos econômicos já jogaram os resultados da indústria automotiva aos piores níveis registrados em seis décadas no Brasil. Após o forte tombo das vendas na segunda quinzena de março e em abril, uma ligeira recuperação aconteceu em maio e ganhou força em junho, mas em nível muito abaixo de 2019, fazendo o primeiro semestre caminhar para fechar com 750 mil veículos vendidos, o que representa expressiva queda de 42% sobre os mesmos seis meses do ano passado.


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“As montadoras passaram praticamente dois meses fechadas (abril e maio), as vendas e o faturamento despencaram mais de 80%. No ambiente macroeconômico há projeções de PIB negativo de 6% a 8%, e o dólar chegou a bater os R$ 6. Some a tudo isso o ataque da pandemia na saúde da sociedade e temos a tempestade perfeita: queda de produção, queda de vendas no mercado interno e na exportação, aumento de custos, retração de confiança do consumidor/investidor e indicadores econômicos ruins”, enumera Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea.

“Os consumidores com maior poder aquisitivo também estão preocupados com a situação do País. No entanto, tão logo os primeiros sinais de retomada da economia surjam, esses clientes tendem a voltar mais rapidamente às compras”

João Oliveira
Presidente da Abeifa

A crise pandêmica também afeta severamente toda a longa cadeia do setor que emprega perto de 1 milhão de pessoas. Fornecedores de componentes e concessionários não divulgaram projeções até o fim de junho. “Ainda falta visibilidade, mas entendemos que a projeção divulgada pela Anfavea é o melhor instrumento que temos neste momento, pela proximidade maior que as montadoras têm do mercado final e pela relevância da produção de veículos novos na produção de autopeças”, afirma Dan Ioschpe, presidente do Sindipeças, entidade que reúne cerca de 500 fornecedores dos fabricantes de veículos no País.

“Estamos vendo recuperação gradual nos mercados em que as concessionárias foram autorizadas a reabrir. No entanto, a queda entre março e abril foi muito expressiva, superando os 77%. Faremos novas projeções após o fechamento do primeiro semestre, mas esperamos retração em todos os segmentos”, diz Alarico Assumpção Jr., presidente da Fenabrave, associação dos distribuidores oficiais de veículos novos. Logo no início da crise, com faturamento do setor paralisado, a Fenabrave chegou a prever o encolhimento de 30% do setor que mantinha 7,3 mil concessionárias em funcionamento que empregavam 315 mil pessoas.

O tombo acabou sendo mitigado pela aceleração das vendas on-line e a flexibilização de contratos de trabalho trazidas pela Medida Provisória 936 editada pelo governo em abril e renovada em junho, permitindo o afastamento temporário de funcionários e reduções de jornada e salários, em parte pagos por fundos do seguro desemprego. Mas parece certo que ao passar por uma crise sem precedentes todo o setor passará por algum grau de encolhimento, com demissões e fechamento de fábricas e concessionárias.

“É certo que o setor automotivo não sairá ileso dessa pandemia sem precedentes, mas, em relação a outros setores, sairá de forma razoável porque já demonstrou em passado recente sua resiliência e capacidade de recuperação”

Dan Ioschpe
Presidente do Sindipeças

Entre os importadores de veículos associados à Abeifa, o dólar nas alturas potencializou a crise, mas como o setor inclui veículos de alta gama e compradores de alto poder aquisitivo, a expectativa é de contração um pouco menor, em torno de 30%, com a venda de 24 mil unidades. “As associadas têm taxa de retração menor em relação ao mercado interno, porque há demanda reprimida”, avalia João Oliveira, presidente da Abeifa. “Neste momento de pandemia, os consumidores com maior poder aquisitivo também estão preocupados com a situação do País. No entanto, tão logo os primeiros sinais de retomada da economia surjam, esses consumidores tendem a voltar mais rapidamente às compras”, acrescenta.

“Novo normal” é opaco

Após uma crise tão forte que ainda não tem data para acabar, poucos se arriscam a fazer projeções para 2021 ou além. É consenso entre os principais consultores do mercado e entidades representativas que levará de dois a três anos para voltar aos níveis de vendas e produção de 2019, quando foram produzidos quase 3 milhões de veículos no País. Também não está certo o que restará em pé do setor.

Com números obtidos pouco antes do fim do primeiro semestre, a consultoria IHS Markit tem visão mais otimista que a da Anfavea, calcula que o mercado brasileiro irá absorver 1,86 milhão de veículos leves de passageiros e utilitários em 2020, o que representará queda de 30% sobre 2019. Para a produção a estimativa é de recuo parecido, 33%, para 1,88 milhão de unidades fabricadas.

Para 2021 a IHS Markit projeta recuperação importante do mercado brasileiro, que avançaria 23% sobre 2020, para 2,3 milhões de veículos leves vendidos – ainda bastante abaixo, portanto, das 2,66 milhões de unidades de 2019. E a produção cresceria na casa de 30%, para 2,44 milhões, também bastante aquém dos 2,8 milhões fabricados no ano passado.

Moraes, da Anfavea, reconhece que o tamanho de mercado pós-pandemia e ociosidade das fábricas girando acima dos 50% torna difícil manter o mesmo nível de emprego nas fábricas. “O setor automotivo, com capacidade de produzir 5 milhões de veículos por ano, vinha se recuperando da crise de 2015/16 e este ano havíamos projetado a venda de 3 milhões de veículos. Após a Covid-19, indicamos que o volume pode ser de somente 1,67 milhão. Essa é uma situação muito delicada que não pode ser mantida por muito tempo”, admite o presidente da Anfavea.

Dan Ioschpe, do Sindipeças, também prevê um cenário difícil, mas não tão destruído: “É certo que o setor automotivo não sairá ileso dessa pandemia sem precedentes, mas, em relação a outros setores, sairá de forma razoável desta crise, porque já demonstrou em passado recente sua resiliência e capacidade de recuperação”, confia. “Não nos parece que haverá fechamento de fábricas em massa. Teremos ajustes pontuais, que ficam agravados com a pandemia. Mas longe de sugerir redução significativa do setor”, completa.

Apesar de o “novo normal” ser ainda opaco, sua dinâmica depende em muito da quantidade de estímulos que o governo será capaz de dar à retomada da economia. “Em outros países, os governos adotaram medidas de suporte ao emprego, linhas de crédito para pequenos negócios e grandes empresas, estão oferecendo estímulos ao consumo para aquisição de novos veículos”, lembra o presidente da Anfavea. “Nesse momento de retomada, o fortalecimento da demanda é o mais importante. A redução dos juros e carga tributária para o comprador final, e um programa de renovação de frota inicialmente focado nos veículos comerciais, parecem ser os melhores caminhos”, sugere o presidente do Sindipeças. “Paralelamente, é necessário voltar à agenda anterior à pandemia, focando a redução do custo Brasil, a integração do País ao mundo e no fortalecimento da pesquisa, desenvolvimento e inovação”, destaca.

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