Análises Edição 60 O novo contexto

A mobilidade pós-covid – muito além do home office

É certo que o mundo não será mais o mesmo e que as pessoas estão reconfigurando suas vidas em função das novas tendências.
Marcelo Cioffi

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Que a pandemia do covid19 acelerou tendências de futuro como o home office e o ensino a distância, ninguém duvida. A dúvida é o quanto do que estamos vivenciando será permanente, e como essas tendências afetarão o deslocamento das pessoas no dia a dia e por consequência a demanda por mobilidade nas cidades. É certo que o mundo não será mais o mesmo, que as pessoas estão reconfigurando suas vidas em função destas novas tendências. Mesmo escolhendo morar mais longe para se ter maior espaço, se a onda de home office persistir, e acredito que será o caso, ter um ou dois carros na garagem para serem usados 2 ou 3 vezes por semana pode não fazer mais sentido para muitas famílias. Esta já era uma tendência quando as pessoas procuravam morar mais próximo do trabalho e utilizar serviços de mobilidade em substituição a um veículo privado na garagem. Mas a pandemia não terá apenas este impacto. Novas visões sobre o mundo e sobre a vida, podem trazer novas oportunidades e desafios para o setor automotivo como um todo.  É o que se pode aprender com uma recente atualização da Global Consumer Insights, tradicional pesquisa sobre consumo conduzida pela PwC, conduzida antes da pandemia e atualizada após sua instalação.  A comparação entre os resultados pré e pós-pandemia nos trazem insights valiosos.

A primeira constatação é que em termos gerais, como esperado, houve um impacto significativo na renda dos entrevistados, com 40% respondendo terem sido impactados com uma redução de renda por terem sido demitidos ou não terem a mesma carga de trabalho anterior à pandemia. Se os consumidores têm menos renda eles tendem a gastar menos com consumo. De fato, o percentual de consumidores que responderam que gastarão menos nos próximos 12 meses dobrou na atualização da pesquisa e mesmo aquele grupo que pretendia gastar mais antes da pandemia, caiu de 46% para 33%. Mesmo olhando o lado cheio do copo, em que ainda temos 33% de respondentes pretendendo gastar mais nos próximos 12 meses, este número era de 46% antes da pandemia. Ainda que não tenha sido perguntado especificamente sobre aquisição de bens duráveis, a decisão do consumidor em relação ao seu padrão de gastos indica que mesmo as compras associadas a bens ainda menos representativos na sua renda sofrerão bastante. Bens de consumo rápido como vestuário (queda de 51 %), equipamentos esportivos (queda de 46 %), restaurantes (queda de 41 %), entre outros, terão quedas representativas. Tudo isso em função do decréscimo da renda real do consumidor – menos renda, menos consumo. Fica claro que o consumidor estará mais atento aos seus gastos no futuro e sendo a compra do automóvel um dos itens que mais pesam em sua carteira, há um cenário mais complexo para o setor na venda de veículos para uso privado. Esta situação, por outro lado, por beneficiar os provedores de serviços de mobilidade.

Com relação à mobilidade das pessoas, antes da pandemia, os respondentes gastavam boa parte do seu tempo fora de casa em compras em lojas físicas, entretenimento, refeições em restaurantes e viagens. Na versão pré-covid, 47% dos entrevistados diziam comprar em lojas físicas uma vez por semana. Durante o período de “lockdown” no entanto, esta tendência mudou rapidamente, com consumidores visitando lojas físicas com pouca frequência, fazendo refeições e procurando entretenimento em casa. Ainda que a vida possa voltar ao normal, para que as pessoas saiam de casa e voltem a visitar lojas, restaurantes e locais de entretenimento, elas precisam se sentir seguras. Em uma outra pesquisa da PwC sobre os negócios de hospitalidade nos EUA, segurança e limpeza tornaram-se a consideração número 1 das pessoas quando reservam voos e hotéis. Claramente, há uma preocupação e valorização sobre a preocupação das empresas com as medidas sanitárias necessárias ao servir o cliente.  Não à toa, muitas companhias aéreas, hotéis e locadoras, passaram a anunciar suas medidas tomadas com relação a higienização e protocolos usados ao servir o cliente e proteger seus funcionários. Esse tema impacta diretamente os provedores de serviços de mobilidade, locadoras e concessionárias.

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Outro fator confirmado na pesquisa é o crescimento de atividades em casa – mais de 36% dos respondentes indicaram ter aumentado o entretenimento em casa e 26% de atividades relacionadas a melhoria da casa e jardinagem. Empresas que desenvolvam experiências em casa ou perto de casa terão grande vantagem neste mundo pós-covid19. Poderemos ver um crescimento de áreas de lazer, shopping, alimentação, saúde e bem estar mais localizados, com a criação de grandes centros onde pessoas irão trabalhar e morar. A criação destes ecossistemas implica em uma redução dos deslocamentos, mas pode gerar boas oportunidades para serviços de mobilidade autônomos por exemplo.

A pandemia também acelerou a tendência de compras on-line. Forçados a ficar em casa e com receio em sair às compras, o consumidor se atirou nas compras on-line. Mais de 50% dos respondentes da pesquisa disseram que diminuíram suas compras em lojas físicas e em contrapartida, aumentaram significativamente as compras on-line, usando as mais variadas formas de tecnologia: assistentes digitais, relógios inteligentes, smartphones, tablets e o computador. Cerca de 90% dos respondentes disseram que este é um hábito que pretendem manter no futuro. Mas o que salta aos olhos é o fato de que antes da pandemia, apenas 9% das pessoas diziam que faziam compras exclusivamente on-line em supermercados – este número passou para 63% dos consumidores entrevistados! Destes, 86% pretendem manter este hábito mesmo após a remoção das práticas de isolamento social. Uma ótima oportunidade para se combinar entrega de compras de supermercado e serviços de mobilidade. Da mesma forma, habilitar o veículo como um método de pagamento e entregar as compras efetuadas por voz diretamente no porta-malas em um “drive thru” ou em qualquer lugar, parece promissor.

Na pesquisa pré-covid, observamos uma forte tendência do consumidor em se preocupar com a sua saúde, principalmente através da alimentação, com foco em comida saudável e suplementos. Durante a pandemia, houve um enorme crescimento nesta tendência, mas de forma mais ampla – consumidores não passaram a se preocupar apenas com a saúde física, a saúde mental está em alta (69% dos entrevistados disseram que passaram a se preocupar com este tema). Foco na saúde física e mental parece ser uma grande mudança trazida pela pandemia e provavelmente parte da renda dos consumidores serão direcionados para produtos e serviços nessa área. Será necessário pensar, por exemplo, em novos materiais, configurações, acessórios e softwares que atendam esta necessidade. Ter a segurança que os materiais dos veículos possam proteger contra vírus e bactérias será tão importante quanto saber que o carro alugado ou compartilhado foi devidamente higienizado. Da mesma forma, saber a temperatura do motorista antes de aceitar uma corrida de táxi ou aplicativo ou saber que o ar condicionado tem a capacidade de filtrar partículas indesejadas também.  E que tal filmes ou materiais que permitam isolamento entre os ocupantes? Novas configurações do habitáculo, softwares e acessórios também podem ser utilizados para transformar o veículo em um espaço de maior utilidade no dia a dia dos consumidores com estas preocupações, se transformando em escritório, local de descanso ou simplesmente em um ambiente que propicie melhor bem estar. E porque não estender o conceito dos “smartwatches” para o veículo e propiciar monitoramento inteligente dos sinais vitais do motorista e passageiros?

Com esta preocupação de saúde física e mental, percebe-se também uma maior preocupação com o planeta, já que não é possível ser saudável vivendo em um ambiente desfavorável. Este novo consumidor, que traz consigo um novo significado para a vida, estará atento a modelos de negócio e sistemas que tragam menor impacto ambiental, além de buscar soluções para uma vida mais simplificada e com menos stress. As empresas precisam inovar para atingir essas expectativas e ganhar a lealdade desses novos consumidores. Nesta onda, fortalecem-se os “cases” para os veículos elétricos e o compartilhamento de veículos. A proibição de veículos a combustão após 2035, anunciada recentemente pelo estado da California, vai nesta direção.

Já em uma outra pesquisa feita na China pela PwC, durante a pandemia, 84% dos entrevistados entendiam que comprar um carro privado será importante após a epidemia para dar a proteção futura necessária. No Brasil, este pensamento, associado as baixas taxas de juros atuais podem atenuar o efeito da menor renda nas vendas de veículos. Adicionalmente, nessa mesma pesquisa, 92% dos consumidores responderam que sistemas de purificação do ar serão necessários no futuro e que 70% dos carros deveriam vir equipados com kit de primeiros socorros que incluem máscaras de proteção.

Conforme visto, além da aceleração de tendências como o crescimento do e-commerce, a adoção do home office, a telemedicina e o ensino à distância, que impactam diretamente a mobilidade das pessoas, há também uma mudança importante na relação entre vida e consumo. Consumidores estão mais atentos a saúde, bem estar e sustentabilidade e passam a valorizar e avaliar cada vez mais a real utilidade e benefício do que consomem. Estarão mais atentos e continuamente avaliarão se os espaços que utilizam atendem essas necessidades de saúde física e mental, segurança, bem estar e baixo impacto ambiental. E aí se inclui o veículo,  seja este próprio, alugado ou compartilhado.

Um novo olhar para estas mudanças é fundamental em todo o setor automotivo. Um olhar atento, que foque no que realmente importa para este novo consumidor que surge com novos valores e aspirações. Um olhar que foque no que realmente importa para ele, necessidades que vão muito além do deslocamento. 

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