Edição 60 Planejamento 2021

As oportunidades de uma crise pandêmica

Montadoras e fornecedores avaliam os prós e os contras de 2020 e como eles podem influenciar os negócios no futuro
Sueli Reis

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A pandemia ainda não mostra um fim visível no horizonte, mas os piores impactos sobre a indústria automotiva como um todo já podem ter ficado para trás, uma vez que diversos segmentos do setor registram números pré-crise, com curva de crescimento ascendente. O que se tem agora é o desafio de reestruturar e retomar as atividades a um ritmo que atenda a demanda local, ainda em baixa por causa da crise que veio junto com a pandemia, mas ao mesmo tempo, não perder de vista as oportunidades que ficaram em evidência neste ano.

É o caso do aumento da localização de peças e componentes pela indústria brasileira. Embora algumas fabricantes de veículos tenham reduzido seu volume de compra em média entre 35% e 40% neste ano, justamente por causa dos ajustes necessários de estoques, para 2021 a indústria já trabalha com a expectativa de voltar ao patamar dos volumes de 2019.

As próprias montadoras exaltam que a cadeia de fornecimento de componentes teve comportamento melhor do que poderiam supor há seis meses. Com isso, um fator torna a premissa de localização ainda mais urgente: a valorização exacerbada do dólar, que há meses supera a cotação de R$ 5.

Pandemia e dólar têm semelhanças, como os impactos negativos que causam em toda a cadeia, mas no caso da crise sanitária, que é global, os efeitos são claramente pontuais. Silvia Simon, gerente sênior de compras da Mercedes-Benz, é direta: “Dólar alto é custo na veia e tem permanência”.

Por outro lado, os dois fatores combinados neste ano foram retomados nas discussões internas de programas de nacionalização de componentes. Caso da FCA, onde o diretor de compras para a América Latina, Juliano Almeida, informa que a empresa está revisando projetos que antes resultaram em importação. “Talvez agora faça sentido nacionalizá-los”, diz. Ele lembra que as diretrizes do Rota 2030 e a próxima etapa do Proconve, tanto para automóveis quanto para veículos comerciais pesados, podem representar novas oportunidades para fornecimento local.

“O momento atual deve ser encarado com muita parceria. De fato, o que precisamos focar é a nacionalização: identificar as oportunidades e não perder. Eu diria localizar visando mais de um cliente e buscar eficiência em termos de automação que faça sentido, com os investimentos certos, para não criar problemas no futuro”, destaca Juliano, da FCA.

Segundo o diretor de compras da General Motors, Rodrigo Godinho, há um enorme desejo de nacionalizar, mas a decisão não é exclusiva das montadoras. “Depende de um trabalho colaborativo com a base dos fornecedores. E o que vem ocorrendo na América do Sul gera algum receio para investimentos”. O executivo se refere às dificuldades macroeconômicas que geram dificuldades financeiras e falta de recursos para a cadeia, que precisa investir em novos projetos a fim de acompanhar as transformações do setor.

A INDÚSTRIA ESTÁ DE PÉ

O presidente da Robert Bosch Latin America, Besaliel Botelho, reforça sua convicção de que os fornecedores têm capacidade para aumentar a localização de peças e componentes. “Agora é a hora de vocês prestigiarem as indústrias aqui instaladas por todos os motivos já ditos e que todos sabem e, especialmente pelo câmbio favorável [à nacionalização]”, sinalizou.

O presidente da MWM, José Eduardo Luzzi, defende que a preocupação com a pandemia no Brasil começou em janeiro justamente por causa do fornecimento de componentes importados vindos de locais que já estavam afetados pelo novo coronavírus, como a China. A situação, naquela época, reacendeu a discussão sobre o aumento do conteúdo local.

“Nós da MWM sempre privilegiamos o que é desenvolvido no Brasil. A vantagem de desenvolver aqui é ter fornecedores por perto e não ficar tão exposto em momentos como esse e depender tanto da importação”, reforça Luzzi.

Comprar onde é mais barato após a pandemia talvez não seja tão simples daqui para frente, ponderou Botelho, explicando que as exportações da Bosch têm permanecido na casa de 30% dos negócios, índice considerado ideal para que a empresa se mantenha saudável.

“A desglobalização vem sendo fortemente discutida. Fomos todos prejudicados e aqui no Brasil também por causa da questão de competitividade. Com isso, hoje há uma briga de foice no escuro, estamos brigando com nossas próprias matrizes para vender globalmente”, expõe Botelho, indicando que ao atacar a competitividade, o investimento na indústria local traz benefícios tanto para as vendas internas quanto externas.

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