Edição 61 Visão de futuro

Caminhões e ônibus pegam no pesado

Pandemia acelera conectividade e serviços on-line
Lucia Camargo Nunes

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O setor de veículos de pesados vive no Brasil a dicotomia de lidar com o aquecimento da venda de caminhões, de todos os portes, represado pelo desarranjo de suprimentos, e as incertezas e desafios com a biossegurança no segmento de ônibus, um dos mais afetados pela pandemia. No transporte de carga, a visão otimista da pós-pandemia é de recuperação em V, com trimestres sucessivos de melhora e um bom nível de demanda do mercado.

“Se não fosse a parada do segundo trimestre estaríamos muito próximos de 2019”, avalia Carlos Alberto Briganti, managing director da Power Systems Research América do Sul

Para ele, alguns setores estão contribuindo para isso, como o do agronegócio, o transporte de longa distância, minérios – esses voltados aos caminhões pesados – e a construção civil, que está aquecida e puxa o segmento de médios. “O ônibus, por sua vez, é um problema, está sofrendo este ano e deve sofrer no ano que vem.”

Mas nem onde há demanda se navega tranquilo. O que Briganti observa é um desarranjo em toda a cadeia, por causa dos problemas com desabastecimento de peças.

“Como todos estão em uma economia globalizada, em momentos diferentes todos pararam. Quando a China, principal supridor de todo mundo parou, ela interrompeu o abastecimento da cadeia mundial e essa recuperação vem vindo de forma desordenada. Ao mesmo tempo, fornecedores tiers 1, 2 e 3 não conseguem ter um planejamento firme. Por causa desse desordenamento na cadeia, há o desabastecimento, o que leva ao aumento de preços.”

Por isso, o último trimestre de 2020 serve para reordenar a cadeia. E para complicar, a China se recupera bem, com uma produção este ano melhor do que 2019, o que significa para eles uma demanda doméstica aquecida, com a produção voltada para atender àquele mercado interno. “A China voltou com tudo, full time, produção 30% maior que o ano passado. Tudo isso complica para nós, que poderíamos estar melhor se tivéssemos material”, afirma o consultor da Power Systems.

Outro fenômeno que ocorre hoje no Brasil é a previsão de volume de venda muito próxima da produção, o que não é normal. Geralmente, a produção é maior que a venda por causa das exportações, modalidade que caiu bastante, mas não suficiente para igualar produção a vendas. Contudo, é esperado um aumento de volumes nas fábricas para a recuperar estoques.

As exportações não prometem uma recuperação no próximo ano, já que os principais destinos estão na América do Sul e Central. “Por diferentes motivos é uma situação difícil. Não sabemos quanto tempo a Argentina vai levar para sair dessa situação. E o Chile enfrenta problemas sociais, além da pandemia. Devemos lembrar que todos vão querer exportar e haverá muitas disputas de mercados”, pontua Briganti.

Num próximo momento, mesmo com a recuperação do mercado, os investimentos também ficarão represados. Para o consultor, as empresas vão segurar seus aportes. “O nome do jogo é caixa, numa crise dessa elas têm que ter caixa.”

JORNADA DIGITAL

Pelo WhatsApp, agora o cliente começa e termina seu pedido de atendimento, sem precisar falar com mais ninguém

As fábricas tiveram de parar, mas a Volkswagen aproveitou o ano para implementar soluções tecnológicas e de forma rápida e acelerada em seus serviços. “Não chamamos de transformação, mas de jornada digital. Pegamos aquele concessionário que não tinha afinidades digitais e o apresentamos a alguns aplicativos. Alguns deles foram se integrando”, conte Antonio Cammarosano, diretor de serviços e pós-venda da Volkswagen Caminhões e Ônibus.

“Tivemos casos de sucesso absoluto [na digitalização], mas também tivemos concessionário que não respondeu a uma cotação digital porque ele não estava acostumado a verificar isso no aplicativo. Em alguns casos é cultural”, explica Antonio Cammarosano, diretor de serviços e pós-venda da Volkswagen Caminhões e Ônibus.

“Nós estamos promovendo uma jornada digital para que todos os concessionários tenham o mesmo nível. E assim conseguimos entender o que o cliente quer fazer no digital e no presencial. É tudo um aprendizado”, conta o diretor da VWCO.

Ele cita os vários projetos que surgiram ou foram acelerados por causa da pandemia. Um deles é o atendimento pelo WhatsApp no Chame Volks, a central de relacionamento: o cliente se comunica pelo aplicativo do começo ao fim. “Se você liga pelo telefone ele não te atende. Ele quer começar e terminar pelo WhatsApp.”

Outro projeto foi a criação de um assistente virtual, que descobre se o assunto é venda, manutenção ou peças. A partir daí direciona o cliente para algum concessionário. De acordo com Cammarosano, esse pré-atendimento recebeu muitos acessos durante a pandemia.

Todas as autorizadas foram colocadas na rede Truck Help, que tem mais de 50 mil caminhoneiros cadastrados. “Se quiser peças ou serviços, ele consegue comprar em toda a rede Volkswagen. Se precisar de algum atendimento, ele clica no Chame Volks, dentro do aplicativo. Começamos a migrar para dentro do aplicativo para ter uma presença digital maior”, explica o diretor. Ele avalia que esse é o grande ponto da jornada: estar conectado com o mercado.

Cammarosano cita mais uma ação de sucesso: uma parceria com a SafeD para um curso de direção econômica gratuito online, aproveitando muitos motoristas parados nos momentos mais críticos da quarentena. “Teve empresa que inscreveu 300 motoristas, totalmente online. Foi um sucesso, os clientes gostaram muito”, ressalta.

A pandemia acelerou esse processo. “A projeção que tínhamos para 10 anos aconteceu nos últimos seis meses.” Uma das próximas ações, planejada para 2021, será implementar óculos de realidade aumentada na concessionária para que a fábrica possa dar suporte e agilize a resolução do serviço sempre que a oficina encontrar uma dificuldade.

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RESISTÊNCIA

Os fabricantes de veículos pesados precisarão segurar os investimentos para conseguir refazer o caixa

A Mercedes-Benz também acelerou seus projetos virtuais. O showroom Star On-Line foi lançado em abril. “Conseguimos colocar no ar rapidamente, antecipamos esse novo canal com o cliente, entregamos uma experiência, de maneira virtual, para ele ser atendido em sua região”, conta o vice-presidente de vendas e marketing caminhões e ônibus, Roberto Leoncini. E acrescenta:

“Tivemos números significativos nos primeiros três meses: foram 1.500 veículos publicados, incluindo vans e ônibus, 7.500 clientes cadastrados. Mas enfrentamos resistência na cadeia inteira, com dealers céticos, porque alguns já tinham seus próprios sites”, comenta Leoncini.

Em peças e serviços, a MB também não parou. A marca conseguiu manter a maioria dos 185 concessionários abertos, mesmo com restrições, além de serviços dedicados dentro do cliente em quase 100 pontos e 11 lojas Select Truck. “São mais de 300 pontos de contato. É um número bem significativo e vai na premissa de atender”, reforça Leoncini.

Leoncini enxerga cada dia como um desafio. “Ficamos 90 dias sem produzir e não se recupera isso em 30, 40 ou 60 dias. A produção voltou em 50%, criou impacto na entrega diária e estamos tentando compensar isso. Agora é o nariz para fora da piscina. Tudo o que produzimos faturamos, mas alguns produtos precisamos ter no estoque”, avalia o executivo, fardo de quem tem uma full-line e precisa entender todas as mudanças dos segmentos. 

Na visão de Leoncini, a frota urbana já mudou a logística, com centros de distribuição mais próximos da cidade, utilizando caminhões grandes na transferência para o centro de distribuição, e outros caminhões menores para a última milha.

MANUTENÇÃO

O volume de vendas estimado em caminhões é próximo ao de produção, o que é raro nesse mercado

A conectividade tem sido um ponto-chave para a Scania, no processo de evolução de melhoria contínua dos produtos. A linha 2020 da nova geração de caminhões da marca, por exemplo, recebeu o Actcruise, acelerador inteligente, ligado ao piloto automático, que aproveita a inércia do caminhão quando possível para diminuir o consumo de combustível. “Pode haver até 3% de redução de consumo. Essa é a jornada em que estamos, não só em veículos como em serviços também”, comenta Silvio Munhoz, diretor de vendas de soluções da Scania no Brasil.

A conectividade também está nos serviços Drive as a Service, para melhoria da operação do caminhão ou ônibus, que lê os dados, interpreta e diz o que é preciso fazer: melhorar a aceleração, frear mais em algum ponto e usar a marcha lenta de uma forma constante, entre outros.

A montadora já investe em sistemas de serviços conectados há 5 anos, visando sistemas de gestão e expandindo o uso de sistemas conectados para outros programas, como o de manutenção flexível, lançado no ano passado.

“É um processo de evolução. Temos uma grande aderência: 38% dos caminhões vendidos saem com o programa de manutenção, porque o cliente já usou, reconhece e quer ter no novo produto a mesma coisa. Ele constatou a economia como resultado da aplicação do programa”, conta Munhoz.

A pandemia só fez crescer o interesse nos serviços conectados. O diretor da Scania acredita que uma das consequências da quarentena foi a reclusão de executivos e gestores de empresas de transporte, levando todos ao computador, para o virtual, para a análise de dados que já existiam e não davam muita importância porque não tinham tempo.

ESTRATÉGIAS

O estreitamento das parcerias estratégicas para viabilizar o GNV e o reforço nas ações que envolvem os setores de venda e pós-venda são algumas das estratégias da Iveco para enfrentar este momento. “O GNV é uma alternativa viável para a redução de poluentes e custo operacional no transporte de cargas e transporte público de pessoas. A marca enxerga um potencial muito elevado de introdução da tecnologia em aplicações urbanas, principalmente nas grandes capitais. Coleta de resíduos sólidos e entrega de mercadoria porta a porta representam as aplicações típicas da tecnologia GNV”, pontua Márcio Querichelli, líder da Iveco para a América do Sul.

“O GNV é uma alternativa viável para a redução de poluentes e custo operacional no transporte de cargas e transporte público de pessoas. A marca enxerga um potencial muito elevado de introdução da tecnologia em aplicações urbanas, principalmente nas grandes capitais. Coleta de resíduos sólidos e entrega de mercadoria porta a porta representam as aplicações típicas da tecnologia GNV”, pontua Márcio Querichelli, líder da Iveco para a América do Sul.

Este ano, a marca manteve bom crescimento de mercado em parte graças ao varejo, atendido pela Daily e pelos modelos 9 e 11 da linha Tector, e ao agronegócio, com as linhas Hi-Road e Hi-Way. “O próximo ano deve seguir essa tendência. Estamos otimistas que continuaremos a ampliar a nossa participação no mercado com produtos e serviços que proporcionam o melhor custo/benefício do mercado.”

O relacionamento com o cliente será levado para outro nível. “Estamos em franca expansão da capilaridade da nossa rede de concessionárias, e nos últimos meses abrimos uma grande quantidade de novas instalações. Os novos grupos que se aliaram à marca Iveco têm grande experiência no segmento de caminhões, o que já está sendo percebido e reconhecido pelos clientes destas regiões. E esse trabalho não para por aqui, muito em breve teremos novidades”, antecipa Querichelli.

Para o líder da Iveco, o futuro dos caminhões segue a tendência do futuro da sociedade: conectividade, internet das coisas, automação e energias limpas. “Esse movimento nos coloca em uma era onde os caminhões já possuem níveis avançados de tecnologia embarcada que proporcionam uma operação mais segura e sustentável.” Para isso, ele destaca o Iveco Connect, sistema de telemetria e conectividade inteligente que agrega, em uma única ferramenta, importantes funções.

TECNOLOGIA

Durante o período da pandemia, a Volvo reinventou o modo de atuar com concessionários e clientes, usando os recursos digitais e, assim, fechar importantes negócios com clientes e realizar reuniões estratégicas e treinamentos virtuais com as equipes, além do reforço no estoque de peças de reposição na fábrica e nas concessionárias.

“Não paramos de apresentar novidades este ano, mesmo durante a pandemia”, diz Alcides Cavalcanti, diretor executivo de caminhões Volvo do Brasil ao se referir aos lançamentos do VM City, para atender aplicações de uso urbano e de curtas distâncias, e o VM Light Mixer, para o setor de construção civil, especificamente na aplicação betoneira.

O Dynafleet, sistema de gestão de frotas e telemetria em tempo real, possui 56 mil caminhões conectados no País em um total de 75 mil na América Latina.

“A proposta da Volvo é utilizar cada vez mais a tecnologia e a conectividade para ampliar serviços que garantam maior disponibilidade do caminhão, menor consumo de combustível e menor custo operacional aos clientes”, ressalta Cavalcanti.

As perspectivas são promissoras para 2021, em alguns setores da economia que demandam caminhões, como agrícola, sucroalcooleiro, mineração, florestal, construção e indústria alimentícia. “Ainda estamos avaliando o quanto deve ser essa demanda, mas caso não haja nenhum outro fator inesperado, podemos dizer que haverá uma recuperação importante no mercado de caminhões para o próximo ano”, conclui o diretor da Volvo.

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