Edição 61 Visão de futuro

O novo carro brasileiro

A escolha que vai decidir o amanhã
Erica Munhoz

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Há 10 anos, a oferta e o volume de SUVs no mercado era mínima. Até 2017 sua participação nas vendas era de 20%, menor do que a dos sedãs (21%) e muito inferior à dos hatches (36%). Hoje, há uma vasta variedade de modelos e o SUV passou a ser o segmento que mais cresce na América Latina. E como existe uma migração de diversos tipos de consumidores para esse segmento, as montadoras aumentaram a oferta com produtos mais competitivos, tecnológicos e seguros.

De acordo com Breno Kamei, diretor de planejamento de portfólio da FCA América Latina, em 2020, os SUVs já representam cerca de 25% das vendas no Brasil, e se aproximarão nos próximos anos do principal segmento do mercado, os hatches:

“Nossa expectativa é que os SUVs passem a ser o principal segmento da América Latina em dois a três anos. E nós temos que estar prontos para ofertar o que cliente quer, de um SUV de entrada até SUVs maiores e premium”, diz Kamei.

Ricardo Gondo, presidente da Renault do Brasil, também aposta nesta evolução, especialmente quando se trata da demanda pelo segmento B-SUV, no qual figuram os modelos da marca Duster e Captur. Exemplifica com números. Em 2012, num mercado de 3,63 milhões de unidades, o B-SUV correspondia a 121 mil unidades. Em 2019, num universo de 2,46 milhões, chegou a 407 mil unidades.

Para ele, atributos como maior altura do solo e posição de dirigir elevada caíram no gosto do consumidor brasileiro e, mesmo nesta época de crise, o segmento continua forte e crescendo. A eletrificação também é uma tendência:

“Mais do que apenas vender veículos elétricos, a marca quer se tornar referência em mobilidade sustentável também no Brasil. Por aqui, já contamos com mais de 300 elétricos circulando”, diz Gondo.

“O pior da crise de automóveis no Brasil já passou. Acreditamos que o mercado no ano que vem vá crescer 18% para algo em torno de 2,25 milhões de unidades emplacadas”, calcula. “Mas voltar aos patamares de 2019 só em 2023, 2024. Neste ano, não deve ultrapassar as 1,9 milhão de unidades, queda de 30% em relação ao ano anterior.”

Na General Motors, a expectativa de retração do mercado está na casa dos 40% sobre o ano passado, em grande parte responsabilidade da pandemia de Covid-19, mas não só. Segundo Hermann Mahnke, diretor executivo de marketing da GM para a América do Sul, acompanhada do colapso na saúde veio outra grande crise, a econômica, que fez com que a procura pelo carro novo caísse: “A pandemia causou impactos de curto prazo, com as pessoas ainda se deslocando menos nos grandes centros, viajando menos e compartilhando menos. Isso resultou, por exemplo, no aumento da procura de todos os modais individuais de transporte em diversos mercados”.

“Quando os carros se conectarem entre si e com as cidades inteligentes eliminaremos os congestionamentos e retornaremos às pessoas o seu bem mais precioso, o tempo”, avalia Mahnke, da GM para a América do Sul.

PREFERÊNCIAS

Na visão da FCA, a dominância do SUV está relacionada à experiência que o consumidor terá com esse tipo de veículo. Assim, o carro passará a contar com serviços conectados para trazer mais conveniência e novas soluções para os clientes. Central multimídia com telas cada vez maiores e intuitivas, assistentes virtuais com comando de voz e novas formas de pagamento no carro são destaques que transformarão a experiência que o cliente terá nos próximos anos.

Além da conectividade, novas tecnologias estarão cada vez mais presentes na gama de veículos disponíveis, como a oferta dos vários níveis de automação, na opinião de Kamei. E, pelo que tudo indica, nada segura a expansão desta oferta nos próximos anos. A tendência para veículos híbridos e elétricos também é latente, principalmente entre os clientes que desejam carros premium, tecnológicos e com menor impacto sobre o meio ambiente.

“Os custos e a estrutura para dar forma a essas tendências, tornando-as mais acessíveis e de alcance mais abrangente, são os desafios das montadoras para os próximos anos”, afirma o diretor da FCA.

Gondo explica que a Renault criou um ecossistema de inovação para ganhar eficiência. Em janeiro de 2020, em Davos, o Complexo Ayrton Senna, que abriga as quatro fábricas da Renault do Brasil, foi reconhecido pelo Fórum Econômico Mundial como planta referência em ações envolvendo a indústria 4.0. Também este ano, a Loja Renault, plataforma de compra on-line de automóveis, passou a oferecer todos os veículos da marca.

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DIGITALIZAÇÃO

A pandemia também acelerou processos de digitalização que já vinham acontecendo em todos os segmentos e com o automotivo não foi diferente. Na Chevrolet, por exemplo, que já digitalizava sua experiência de compras havia mais de cinco anos, a restrição de abertura de pontos de vendas físicos antecipou alguns projetos, como a inauguração da primeira loja de carros zero quilômetro dentro do Mercado Livre.

Para Mahnke, a aceleração da digitalização do processo de vendas é um caminho sem volta. “O consumidor está se acostumando a fazer mais compras on-line e não é porque o comércio físico reabrirá que ele deixará de fazê-lo. O importante é estar presente com qualidade em todos os canais pelos quais o cliente deseja ser atendido, seja loja física, telefone, internet ou redes sociais.”

MODELOS DE NEGÓCIOS

Os clientes estão cada vez mais conscientes e com mais autonomia para entender o tipo de oferta que cabe em seu bolso e que esteja alinhada às suas necessidades. Há, inclusive, os que preferem enxergar o carro como um serviço em vez de um bem a ser adquirido. Breno Kamei conta que na FCA muitas tendências emergentes foram identificadas, com algumas tornadas mais evidentes devido às mudanças de hábito decorrentes da pandemia.

“O fato é que a mobilidade sempre fará parte da vida das pessoas, tanto nos grandes centros quanto no interior do Brasil. E o automóvel funciona como elemento chave da mobilidade, seja através do uso exclusivo e individual, seja de forma compartilhada ou por meio de aplicativos”, ressalta Kamei. “As várias modalidades tendem a se combinar. Por isso, estamos atentos a esse movimento e preparando nossas respostas a estas demandas.”

Para a Renault, que tem o pioneirismo em carros elétricos no mundo, segundo Gondo, com mais de 350 mil unidades zero emissão rodando, mais do que apenas vender veículos elétricos, a marca quer se tornar referência em mobilidade sustentável também no Brasil. “Por aqui, já contamos com mais de 300 elétricos circulando.”

Os quase 8 mil veículos compartilhados em diversas cidades do mundo fazem da montadora francesa líder em carsharing 100% elétrico. A boa notícia é que estão aplicando esse know-how em mobilidade sustentável também no Brasil, juntamente com diversos parceiros. “Já temos muitos projetos implementados e estamos em conversas com outros para novas iniciativas”, comemora Ricardo Gondo.

A General Motors trabalha com uma visão de futuro de zero acidente, zero emissão, zero congestionamento e com a segurança de clientes, funcionários, concessionários, fornecedores e comunidade em primeiro lugar. Para alcançar esses objetivos, ela atua em quatro pilares: eletrificação, conectividade, compartilhamento e direção autônoma.

Por apostar em um futuro 100% elétrico e sem emissão de poluentes, a montadora aponta ser pioneira na resolução da equação entre preço e autonomia.  Em parceria com a Honda e o SoftBank, desenvolveu uma nova geração de baterias, a Ultium, que permitirá a criação de diversos tipos de veículos a partir de uma mesma arquitetura.

Outra frente, a telemática avançada, também já é realidade na General Motors, ao conectar mais de 4,5 milhões de clientes no mundo por meio do sistema OnStar. Segundo seu diretor executivo, a marca é a única no Brasil a possuir conectividade de nível 4 nos veículos com a chegada do Wi-Fi embarcado no ano passado: “Quando os carros se conectarem entre si e com as cidades inteligentes eliminaremos os congestionamentos e retornaremos às pessoas o seu bem mais precioso, o tempo”.

Subsidiária da GM, a Cruise já mostrou seu primeiro veículo autônomo sem volante ou pedais, que será testado em breve nos EUA

Com os carros elétricos e conectados, e com a densidade populacional dos grandes centros em constante crescimento, o próximo passo, para a GM, é o compartilhamento como mecanismo para economizar recursos, espaço e tempo. Para tanto, a empresa se debruça no desenvolvimento dos carros autônomos. Por meio de sua subsidiária Cruise, ela apresentou no início deste ano o Origin, seu primeiro modelo sem volante ou pedais que deve ser testado comercialmente em breve nos Estados Unidos.

ETANOL: MAIS LIMPO QUE ELETRICIDADE
A FCA investiu numa nova fábrica de motores em Betim (MG) de olho na melhoria da sua tecnologia em etanol

Em artigo publicado, o presidente da Datagro, Plinio Nastari, explica que o fato de o etanol de cana-de-açúcar ser praticamente neutro em emissões de gases causadores do efeito estufa transformou-o numa das fontes de energia mais limpas para alimentar a mobilidade eficiente do ponto de vista energético e ambiental. Ele diz que, por causa do uso do biocombustível, as grandes cidades brasileiras não apresentam o mesmo nível de poluição do ar que metrópoles como Pequim, Deli e Cidade do México.

Com o etanol, o Brasil tem uma opção tecnológica de mobilidade muito superior à que vários outros países, que se dedicam a substituir motores de combustão interna por soluções que utilizam fontes limpas e de baixa pegada de carbono, numa falsa ilusão de que, desta maneira, estão gerando emissão zero.

Os carros elétricos a bateria que circulam na Alemanha, por exemplo, emitem 141 gramas de CO2 equivalente por km, conforme apontam dados da Universidade de Munique levando em conta a fonte energética do veículo. Já a emissão de gases do efeito estufa dos atuais veículos equipados com motores de combustão interna utilizando etanol, mesmo não estando ainda otimizados, é de apenas 58 gramas de CO2 equivalente por km. Por aqui, com as novas tecnologias a serem implantadas como resultado do programa Rota 2030, a perspectiva é chegar aos de 39 gCO2/km. Um grande ganho.

No caso da FCA, o etanol é e continuará a ser um fator estratégico, confirma Breno Kamei. Ele explica que as perspectivas para a ampliação de seu uso são promissoras, devido ao esforço conjunto dos produtores do combustível e de veículos. “A cadeia da agroenergia está focada em produzir etanol de segunda geração, de modo mais eficiente e com oferta estável e previsível.”

Com isso, a fabricante segue empenhada em aumentar a eficiência energética da combustão do etanol, aprimorando calibração, partida a frio, razão ar/combustível, injeção direta, turboalimentação e melhoria termodinâmica. Nessas configurações, o etanol se torna viável mesmo nos níveis rigorosos de regulamentação de emissões previstos para a próxima década. É também um combustível competitivo para veículos híbridos das categorias HEV e PHEV e pode tornar-se a base de células de combustível eficientes.

“Quando considerado o conceito well-to-wheel (do campo à roda), o uso do etanol é altamente eficiente do ponto de vista de emissões. Isso porque a cana-de-açúcar em seu ciclo de desenvolvimento vegetal absorve de 70% a 80% do CO2 liberados na produção e queima do etanol combustível”, reforça Kamei.

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